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Entrevista - Marcio Petracco

February 5, 2017

 

Marcio Petracco (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 26 de janeiro de 1968) é um multi-instrumentista, músico e pesquisador brasileiro. [1] Fez parte das bandas TNT, The Bluesmakers, Cowboys Espirituais e Trem 27. Atualmente toca guitarra com a Locomotores e mandolin com o Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense, onde é também o vocalista principal. Desde 2007 participa do supergrupo Tenente Cascavel, união de duas das maiores bandas de Rock gaúcho da história, TNT (banda da qual fez parte) e Os Cascavelletes. Começou sua carreira profissional como baixista da TNT, mas esteve ausente da banda quando essa participou da coletânea Rock Grande do Sul, que projetou o rock gaúcho no Brasil inteiro. Voltou logo após, dessa vez tocando guitarra. Gravou os três clássicos álbuns de estúdio originalmente lançados em vinil. Fez parte da reunião em 2003, que gerou um CD/DVD ao vivo. Ministrou oficinas de música para menores infratores na extinta FEBEM, a convite da UNESCO, nas quais aprimorou a técnica da construção de diversos instrumentos de corda a partir de sucata, construindo violinos, bandolins, violões e cavaquinhos com corpos de lata.

 

1-) Conte um pouco sobre seu início na música e na guitarra, Quais foram as principais dificuldades e desafios?

 Essa poderia render um livro!
Quando comecei era difícil conseguir informação e me espanto ao lembrar como a rapaziada se desdobrava pra descobrir tudo. Hoje em dia todo mundo é luthier, por exemplo. Naquela época se ouvia falar de algum cidadão que fazia guitarras em algum lugar distante, mas era tudo muito difícil.
Conseguir discos, lançamentos, eem péssimo ra uma dificuldade enorme. De qualquer maneira, a gente dava jeito.
Meu primeiro instrumento foi um cavaquinho que meus pais tinham em casa. Comprei um jogo de cordas, "reformei" o pobre instrumento, li nos envelopes em que nota se afinava cada corda, consegui ajuda de alguém e comecei a tirar uns choros de ouvido. Só que eu já curtia rock, também. Então tirava alguma coisa, tocava slide no cavaco, Led Zeppelin, Stones e o que mais desse na telha.
Na escola uma turma "pegou o bichinho" da música e aí a troca de informações ajudou muito. Um influenciava o outro, mais tarde alguém apareceu com uma guitarra "de verdade" e cada centavo de informação era uma preciosidade.
De qualquer maneira, sacar cavaquinho (open G, "Paraguaçu") me abriu as portas pra muita coisa.
Assim que descolei um violão, comecei a usar afinações alternativas e isso me levou a ter intimidade com muitos outros instrumentos de cordas. 

 

2-)Em seus trabalhos autorais vemos claramente a referência de outros estilos musicais, Qual a importância para o guitarrista ter influências de outros elementos em sua música e não se prender apenas aos conteúdos de gêneros musicais mais comuns?

 Eu sempre me vi mais como multi-instrumentista do que como  guitarrista, na verdade.

Nos anos 80, quando comecei a trabalhar com música, a onda "shredder" tava com tudo. Como aquilo não era a minha praia, tive de achar caminhos alternativos. Comecei através do slide e suas diferentes afinações, me parece. Tocar outros instrumentos foi consequência natural.
Na casa onde cresci se ouvia muita coisa diferente, música do mundo todo, erudita, folclórica e muito mais. Acho que isso foi importante, também. 
Sempre digo que estudar violão Bluegrass , por exemplo, pode ser muito bom até mesmo pra quem só pretende tocar guitarra elétrica. O uso das cordas soltas é só um dos muitos aspectos que podem fazer muita diferença no "vocabulário" de um guitarrista. E isso é só um dos muitos caminhos que se pode seguir.
Acho fundamental que se busque alternativas, que se diversifique, pesquise. Andar com a manada nunca foi a minha onda.

 

3-) Sobre equipamento, Como está seu set atual? (Guitarras, amps e pedais)

Tenho duas guitarras que me acompanham há décadas, uma LP Custom 72 (54 RI, P90s) que peguei em péssimo estado nos anos 80 e uma Fender Mustang 65 que tem história parecida. Peguei numa época em que ninguém valorizava guitarras antigas. Meu amp principal é um Bassman 59RI há bastante tempo. Tenho outros valvulados menores que são usados em gravações. O principal é um Champ da era "red button" que foi reformado por um amigo.
Vejo muita gente babando pras guitarras antigas, mas tenho usado muitas atuais de custo relativamente baixo e elas me parecem excelentes. Entre outras, tenho Epiphone Wilshire, Squier Classic Vibe Telecaster (open-G), Thinline MIM Telecaster com B-bender instalado por mim, Danelectro Dano-Pro com "Buzz-Bridge" (electric sitar).
Se for listar mandolins, steel guitars e os muitos instrumentos acústicos, raros ou folclóricos, a lista vai longe.
Meu set de pedais quase nunca muda, faz tempo. Afinador, boost, drive TS-like e tremolo. Tenho um Marshall Echohead que eventualmente uso, reverb de mola do Champ pra gravações e muitos pedais que não uso no board, mas em gravações e gigs eventuais. As jóias da coroa são um Big Muff dos anos 70, um Diaz Texas Ranger e um Maestro Phaser MP1.

 

4-) O que anda ouvindo e estudando? Quais suas influencias atuais?

Tenho escutado e estudado de tudo um pouco, como sempre. Meu caminho principal sempre foi buscar as raízes do rock: Blues, Country, Bluegrass e consequentemente as raízes desses gêneros. Música celta, por exemplo.
Se pegar só o Bluegrass, tem flatpickin', fingerpickin', mandolin, violino, "dobro", um universo. Não é pouca coisa.
Blues também: De raiz, elétrico... E cada um desses também tem uma enorme gama de variantes. 
Esses tempos "descobri" um instrumentista gaúcho antigo que meu pai costumava escutar numa fita K7. Era o disco instrumental chamado "Voltei", do violonista Antoninho Duarte, ex integrante do grupo Os Mirins. O violão dele (com captador magnético, certamente plugado em um valvulado pequeno) soa muito como uma guitarra elétrica e tem temas muito bacanas que acho que vale conhecer.

 

5-)Em sua opinião, quais os fatores indispensáveis para se tornar um músico/guitarrista de qualidade?

Acho que acima de tudo tem que haver paixão e dedicação, independente da praia que se escolha surfar. 
Minha onda é sacar de tudo um pouco, mas isso não me impede de admirar o trabalho de amigos que se dedicam a um único gênero e fazem daquilo a sua vida. É importante estar feliz com sua escolha, seja ela qual for.

 

6-) Possui acordo com empresas do ramo musical que viabilizam seus projetos?

Já tive apoio de marcas, eventualmente. No momento, não tenho. Pelo menos não de fabricantes de equipamento musical. Mas tenho relação com empresas diversas, o que é sempre bacana e proveitoso. Acho que a galera tem mais é que apoiar quem dá força de verdade pra músicos, seja grande marca ou o cara que faz coisas em menor escala. Tem muita gente merecendo ser apoiada, tanto músicos quanto empresas/negócios.

 

7-) Algum lançamento ou nova parceria que gostaria de ressaltar?

Tenho o prazer de integrar a Tenente Cascavel, formação que inclui ex-membros das clássicas bandas Cascaveletes e TNT.
Lançamos um DVD que não canso de recomendar, incluindo show, entrevistas e cenas de estrada. 
O Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense tem dois discos bacanas, mas passou da hora de produzir um novo. Deve rolar esse ano.

 

8-)O que pensa da relação tão próxima que hoje vivemos entre a internet e o meio profissional da música? Para você como deve ser o melhor posicionamento do músico profissional em relação a essas ferramentas de trabalho?

A Internet e a tecnologia podem ser recursos fantásticos, são coisas muito além do que a galera da minha época poderia sonhar. O importante é saber tirar bom proveito desse mundo de coisas que elas possibilitam. Ter postura profissional já era importante antes delas, agora mais ainda. Desenvolver relações bacanas com todos, desde o fã até o ídolo, passando por fabricantes de equipo, do grande ao pequeno, artesanal. 
Sempre fui um leitor ávido, desde o tempo em que economizava diárias de alimentação pra comprar revistas importadas. Isso me fez aprender inglês, o que me proporcionou trabalhar como tradutor e intérprete em shows internacionais e me abriu muitas portas. Aprender sempre, é o meu conselho.

 

9-) Qual a importância do músico frente aos problemas sociais que nosso país enfrenta?

 Essa é uma questão interessante. Sempre procurei botar a música a serviço das questões sociais e políticas, não consigo ver uma coisa separada da outra. Apesar de alguns trabalhos não terem um engajamento óbvio ou específico, acho importante que eles sejam feitos com a consciência do resultado que podem (e devem) gerar.
Tocar na rua é uma parte disso, tá conectado com o bom uso dos espaços públicos, com o compartilhamento da arte até com quem não tem condições de pagar por ela. Nessa onda a gente acaba se envolvendo com preservação do patrimônio histórico, mobilidade urbana e políticas púbicas de modo geral. Não conseguiria viver sem isso, acho fundamental se posicionar frente a onda de fascismo, xenofobia e afins que parece crescente no mundo atual, exercitar a solidariedade e a capacidade de se colocar no lugar do próximo.
Aprendi muito ministrando oficinas de construção de instrumentos de corda com sucata pra menores infratores, por exemplo. Pretendo voltar a fazer isso, se a agenda me permitir.
Ensinar é um vício, especialmente de uma maneira holística, no sentido de que todas as ciências se conectam. A música é um excelente caminho pra despertar o interesse por história, geografia, física e muitas outra áreas do conhecimento e essa me parece a maneira mais completa de ser músico. 

 

10-) Agradecemos sua presença no GUITARFLIX, e para finalizar gostaríamos que deixasse uma mensagem para seus fãs e seguidores do blog! Muito Obrigado!

Eu é que agradeço pelo interesse no meu trabalho, gente boa.
Minha mensagem seria de agradecimento e encorajamento. Fazer o que se acredita é fundamental. 
Se mostrar acessível, também.  Quando tive a oportunidade de conviver ou trocar ideia com caras que eu admiro isso foi marcante, fez muita diferença. 
Acho bacana pesquisar o tempo todo, aprender. O conhecimento é a única coisa que ninguém pode nos tirar.
O resto tá nas respostas da entrevista. Espero que os leitores tenham gostado e me disponho a responder a quem tiver alguma dúvida.
Abrações e contem comigo.

 

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